Valor Econômico – Especial Curitiba

Programas de habitação têm verba triplicada

Imagens do Especial Curitiba - Cidade Digital - Publicada no jornal Valor Econômico, edição de 30 de Junho de 2008.
A cidade de Curitiba conduz atualmente o maior projeto habitacional de sua história. Com uma população estimada em 1,9 milhão de pessoas, 240 mil sofrem do chamado déficit habitacional – situação em que vivem de forma irregular, precária ou sem casa própria. Além disso, há cerca de 50 favelas e 258 vilas irregulares espalhadas pelo município. Elas invadem rios, bosques e vales, causando problemas ambientais e também sociais, já que expõem seus moradores a situações de extremo risco. Há 60 mil famílias curitibanas com a posse, mas não a titularidade de suas casas. Para resolver todas essas questões, o governo local está investindo em torno de R$ 300 milhões no atendimento a mais de 35 mil famílias. Mounir Chaowiche, presidente da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), explica que habitação é tema escolhido como prioridade pela atual gestão. “A verba de habitação mais que triplicou nesses quatro anos.” Um dos resultados mais visíveis do programa em curso foi a erradicação de 30% das favelas existentes. O objetivo é acabar com todas. Para tanto, Chaowiche são necessários pelo menos dez anos de trabalho para alcançar essa meta. Erradicar favelas e vilas irregulares significa, na verdade, reurbanizar a região do ponto de vista estrutural e ambiental, já que muitos barracos despejam dejetos em bosques e rios. Diante desses problemas, o município desenvolveu um projeto de recuperação do meio ambiente, coleta e tratamento do esgoto e reassentamento das famílias. Esse projeto de reurbanização de várias áreas da cidade está orçado em R$ 188 milhões e já promove melhorias no entorno de rios como o Passaúna e o Barigüi. Um outro exemplo de avanço é a favela do Parolin, que nasceu há meio século, concentra 1,5 mil famílias e fica localizada na área central de Curitiba. Situada numa zona de risco, ela teve seu projeto de erradicação apoiado pela comunidade. O programa consiste na recuperação total da área e na construção de vias e casas. Os barracos dão lugar a moradias com toda infra-estrutura. Em breve, 700 casas serão entregues. Para entrar com tratores e derrubar barracos, becos e outros cenários típicos de uma favela, a Cohab conta com a ajuda das secretarias de assistência social, de educação, de esportes e anti-drogas. “O segredo está no trabalho integrado e na compra dos terrenos no entorno da favela, usados para a construção de postos de saúde, escolas, creches e casas adaptadas aos deficientes”, diz Chaowiche. Depois da recuperação ambiental da região e da montagem de infra-estrutura básica, Chaowiche conta que as famílias retornam felizes ao local renovado. Isso as ajuda a retomar a vida a partir do lugar onde mantêm seu círculo social e nas proximidades das escolas e dos empregos. A verba para essas obras vem de recursos municipais e financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a agência de fomento francesa AFD – Agence Française de Développement e o fundo Fonplata – Fondo Financiero para el Desarrollo de la Cuenca del Plata. Para ajudar na compra das casas, a Cohab fechou uma parceria com a Caixa Econômica Federal. A demanda por habitação em Curitiba é grande. Há, no momento, 60 mil pessoas de baixa renda que pagam aluguel e sonham com a casa própria. Todas elas aguardam na fila. Este ano, o presidente da Cohab estima que sete mil serão atendidas. As residências são construídas em pequenos prédios de apartamento com quatro pavimentos, dois quartos e sala. No caso das famílias com a posse, mas sem registro da casa, a proposta de regularização fundiária entregou, até junho, em torno de 2,5 mil titulações. A previsão é chegar às cinco mil famílias até o final do ano.

Indústrias apostam na sustentabilidade

Toda vez que um dos sete mil funcionários da Kraft Foods Brasil, fabricante dos chocolates Lacta, dos sucos Tang e dos biscoitos Club Social, precisa jogar fora a pilha ou a bateria de qualquer um dos equipamentos da empresa, ele não pode simplesmente descartar o material na primeira lixeira que encontrar pela frente. O procedimento interno da exige que ele ligue para a área de meio ambiente da empresa e solicite que um mensageiro traga um envelope específico para se fazer o descarte correto do material. Quem burla a regra corre o risco de ser surpreendido pela auditoria interna. Os funcionários de O Boticário são estimulados a usar um software inteligente, instalado na rede interna, que os ajuda a calcular o gasto mensal de energia em suas respectivas residências. A ferramenta cria até gráficos comparativos ano a ano. Em cerca de 12 meses de operação, 35% dos 1,2 mil funcionários já aderiram à iniciativa. Kraft Foods e O Boticário, dois dos maiores símbolos do complexo industrial da região de Curitiba, lideram o movimento verde da capital e de seu entorno com projetos de sustentabilidade. Eles envolvem desde o dia-a-dia dos funcionários até as embalagens dos produtos que serão descartadas no pós-consumo. O Boticário tem um projeto-piloto iniciado em 2006, em Curitiba, e um ano depois ampliado para Belo Horizonte, Recife e Campinas, no qual 80 lojas recebem de volta sacolas, caixas, frascos, folhetos, entre outras embalagens. O intuito é estimular a consciência do consumidor e dar uma destinação correta às embalagens pós-consumo. Todo material coletado é levado para o centro de distribuição da marca, que o entrega a empresas terceirizadas que fazem a separação e a reciclagem. “Não se trata de um projeto que dê retorno financeiro. Pelo contrário, seu custo é relevante, já que sustenta a produção de urnas, folhetos, treinamento das consultoras, transporte e capacitação local para a reciclagem”, explica Renata Barini, gerente de desenvolvimento de Embalagens do O Boticário. Até o momento, 38 mil unidades de embalagens, que representam um volume de quatro toneladas, já retornaram às lojas da marca. Futuramente, o intuito é expandir o projeto a todas as lojas da rede. As embalagens por si só também evoluem em nome do meio ambiente. A linha Nativa Spa, por exemplo, abandonou o cartucho. Os 80 fornecedores estratégicos da marca também são homologados e avaliados do ponto de vista ambiental e social. O tema também tem levado a Kraft Foods a realizar pesquisas e reestruturações em suas embalagens, como fez recentemente com as dos sucos em pó Tang, Clight e Fresh, que ficaram menores, e das barras de chocolate Lacta, que agora usam um invólucro só ao invés de dois. No primeiro caso, a Kraft decidiu reestruturar a embalagem das bebidas vendidas na América Latina com o intuito de descartar menos lixo no meio ambiente. O desafio para a companhia, neste caso, foi criar uma embalagem de uso mais racional, que não fosse mais cara ou menos atrativa para o ponto de venda, ou menos eficiente na conservação do alimento. O projeto, que precisaria promover melhorias sem causar prejuízos, gerou uma economia de 1,2 mil toneladas em estrutura flexível no ano passado, na América Latina. Só o Brasil contribuiu com 724 toneladas de redução de embalagens. “A mudança gerou um resultado em cadeia, com a redução de 240 toneladas de caixas de papelão que transportam os produtos e seu conseqüente impacto no ambiente”, diz Fabio Acerbi, diretor de assuntos corporativos e relações governamentais da Kraft Foods Brasil. No caso dos chocolates Lacta, a Kraft também mudou a embalagem. Antes, o chocolate era revestido por uma folha de papel alumínio e depois por um outro papel. Agora, ele usa apenas uma embalagem BOPP (polipropileno biorientado), que ainda traz a função abre e fecha, mais vantajosa para a conservação do alimento. Acerbi diz que a embalagem nova é mais cara, porém mais atrativa ao consumidor e mais “verde” que a anterior. Desde que começou a ser usada, no começo do ano, a embalagem já promoveu uma redução de 218 toneladas anuais de material – papel e alumínio. Na Kraft, o tema sustentabilidade foi inserido em todas as áreas que fazem uso de commodities, embalagens, energia, água, resíduos, transporte e distribuição. “Além da preocupação mundial com a redução dos impactos ao meio ambiente, nós somos uma empresa capitalista e não uma ONG. Cada vez que reduzimos o consumo de energia, baixamos o valor da conta”, afirma Acerbi. Foi isso que aconteceu em 2006, quando a Kraft reavaliou o sistema de iluminação de suas três fábricas de Curitiba e decidiu trocar todas as lâmpadas por modelos mais eficientes e de menor consumo. O resultado foi um investimento de R$ 22 milhões e conseqüente economia de R$ 12 milhões na conta de luz no primeiro ano de mudanças, informa Acerbi. Ao lado de Curitiba, a matriz de O Boticário, situada em São José dos Pinhais, investiu em uma central de triagem de resíduos; em uma central de tratamento de efluentes, responsável por cuidar de todos os resíduos líquidos da empresa; e também uma estação para tratamento de águas com o intuito de reutilizá-la nos processos industriais. Segundo Marcos Baptistucci, gerente de segurança, saúde e meio ambiente do Boticário, em 2007, a empresa conseguiu reduzir em 10% a geração de resíduos das áreas administrativas e elevar para 90% a taxa de reciclagem de caixas, papelão e plástico das mesmas áreas. O consumo de energia da fábrica, por sua vez, caiu 7% no ano passado. Boa parte dos resultados deve-se a pequenas mudanças, processos e atitudes. “A idéia é, cada vez mais, mostrar para os funcionários como é possível melhorar com poucas ações”, afirma Baptistucci. O Boticário investiu R$ 2,8 milhões em educação ambiental, treinamento e estação de tratamento de efluentes e de água.

     

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