Valor Econômico – Especial Curitiba

Opção tecnológica oferece vantagens para a capital

Imagens do Especial Curitiba - Cidade Digital - Publicada no jornal Valor Econômico, edição de 30 de Junho de 2008. O prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), sabe que não precisa fazer muito esforço para apresentar Curitiba a estrangeiros. Ao longo de 40 anos, o planejamento da cidade, as soluções em transporte e o cuidado com o meio ambiente fizeram sua fama no Brasil e no exterior. Prova disso são as milhares de pessoas que já vieram conhecer o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), criado em 1965, e os convites que chegam para que o prefeito faça palestras em seminários internacionais. Em maio, ele esteve em Bonn, na Alemanha, para a Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica (COP9), da Organização das Nações Unidas (ONU). No evento, mostrou ações da capital paranaense para a preservação da biodiversidade. E aproveitou os contatos que fez para distribuir material de divulgação e falar do Tecnoparque, programa criado para atrair empresas de tecnologia para o município. “Em cada evento do qual participei no exterior levei essa proposta da cidade, que é audaciosa”, diz. Antes de o Tecnoparque ser criado, Richa e outros técnicos da prefeitura conheceram experiências semelhantes na área realizadas por outras cidades, como Lisboa (Portugal) e Seul (Coréia do Sul). “Adequamos o que vimos à nossa realidade, às nossas possibilidades”, conta. Ao voltar o foco para empresas da área de tecnologia, a cidade resolveu alguns problemas. Com poucos terrenos industriais a oferecer, ela não teria como atrair grandes indústrias para garantir a geração de emprego. Além disso, não há interesse em investimentos de setores que geram mais poluição. “Acredito que há um bom espaço para a cidade se desenvolver nessa área e gerar oportunidades”, diz o prefeito. “Como Curitiba é bem vista, tudo o você fala sobre ela chama a atenção das pessoas. Aproveitamos esse magnetismo para lançar esse projeto, que tem dado resultados”, completa. Inicialmente, ficou definido que o Tecnoparque seria instalado na zona leste da cidade, em local próximo a universidades. “É uma área com vocação para abrigar empresas da sociedade do conhecimento”, diz Richa. Recentemente a área foi ampliada para parte da região central e Sul, onde fica a Cidade Industrial, que abriga multinacionais como Volvo, New Holland e Bosch desde a década de 70. Hoje, algumas empresas que farão parte do programa estão espalhadas por diversos endereços da capital, porque os prédios que irão abrigá-las ainda não foram construídos. Um dos três centros globais de tecnologia do HSBC, por exemplo, há dois anos funciona em endereço nobre de Curitiba – os outros dois ficam na China e na Índia. Até agora, 32 empresas já assinaram protocolos para instalação no Tecnoparque, e Richa acredita que a atração de outras é questão de tempo. Isso por conta da estrutura da cidade, oferta de mão-de-obra e também os incentivos do ISS Tecnológico, que permitem que parte do imposto devido seja investido em equipamentos e pesquisas. “Curitiba é mais atraente que outras capitais”, afirma. Engenheiro civil, 42 anos, Richa admite encontrar no dia-a-dia dificuldades para acompanhar a evolução tecnológica. “Volta e meia preciso do auxílio dos meus filhos, até do pequeno, de 12 anos, para fazer algumas coisas no computador”, conta. Mas isso não o impede de atuar no planejamento mais macro e também de fazer propaganda do programa municipal. O Tecnoparque, no entanto, não é a única preocupação do momento. Com o aumento das vendas de veículos, mesmo sendo uma cidade planejada e com corredores exclusivos para ônibus, Curitiba passou a conviver com congestionamentos, principalmente em horários de pico. Richa acredita que as obras em andamento, que irão privilegiar o transporte de massa, vão melhorar o fluxo de veículos. “Depois de três décadas com cinco eixos de transporte, estamos construindo o sexto”, diz.

O prefeito refere-se à implantação da Linha Verde, que usará parte da antiga BR-476, que cortava a cidade e ganhou novo trajeto. As obras da Linha Verde estão em andamento e há a expectativa de que ela mude o perfil e valorize a vizinhança da antiga rodovia. O núcleo central do Tecnoparque ficará próximo a ela. “Também renovamos 42% da frota de ônibus. Todos com elevador para acesso de cadeirantes e com motor que diminui em 50% a emissão de gases.”

Linha verde reinventa trecho da BR-116

Curitiba é conhecida em todo Brasil por seu projeto urbanístico. Até agosto de 2009, a capital paranaense também será vista como a cidade que conseguiu tomar para si, em 2004, o trecho urbano da BR-116 (rodovia federal que corta a cidade e tem 22 km de extensão) e transformá-la em uma grande avenida replanejada. Novo símbolo da expansão curitibana, a chamada Linha Verde (antiga BR-116) integrará as regiões leste e oeste da cidade e abrigará o sexto corredor de transporte. Essa grande via que atravessa a cidade nem ficou pronta e já ganhou o status de zona de expansão. Afinal, é a partir dela que se instalarão empresas de ponta e de serviços e a nova zona comercial e residencial de Curitiba. Neste projeto milionário e inédito no país, Curitiba ganhará 16 milhões de metros quadrados livres – são 5,5 milhões metros quadrados para construção, que poderão ser triplicados verticalmente. Estima-se que 300 mil pessoas circularão por dia pela Linha Verde, com chances de chegar a um milhão até 2010. “Com essa nova concepção, esperamos a implantação de grandes empreendimentos e um importante movimento econômico capaz de atrair desde projetos, construções e ocupações até estabelecimentos como bancos, supermercados e habitações coletivas”, prevê Clodualdo Pinheiro Junior, diretor de desenvolvimento da Urbanização de Curitiba (URBS). Antes de se transformar no canteiro de obras que é hoje, a BR-116 abrigava alguns poucos barracos, transportadoras e postos de gasolinas, que já começam a deixar o local. Em seu plano de construção, a Linha Verde contempla principalmente o uso do transporte público e as ciclovias. “Até agora, foram gastos R$ 350 milhões na obra. Faltam ainda entre R$ 120 milhões e R$ 150 milhões para terminá-la por volta de 2011″, calcula Augusto Canto Neto, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC). O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) foi um dos principais financiadores da obra. A Linha Verde é uma região composta também de vários outros eixos. Neto explica que serão construídos, ao todo, uma canaleta exclusiva para ônibus, vias marginais com dez pistas, oito terminais de ônibus, ciclovias e calçadas. Na área central do eixo foi criado o “Tecnoparque”, distrito onde se encontram universidades, a Federação de Indústrias do Paraná e áreas vazias que deverão atrair negócios com vocação tecnológica. Instalar-se lá será financeiramente atrativo. A lei 12767/2008, que cria incentivos para os pólos no setor especial e na zona de transição, oferecerá benefícios a quem usar muita área construída. O núcleo no pólo Tecnoparque da Linha Verde contará ainda com redução de IPTU, ITBI e outros impostos. A proximidade com a mão-de-obra qualificada e a criação de um sistema de transporte público extenso tendem a atrair as empresas de tecnologia fina para a Linha Verde, transformando-a também em um pólo gerador de empregos de altos salários. Além de promover a expansão da cidade, a Linha Verde tem uma função urbanística importante. Segundo Roberto Santoro, diretor técnico da Agência de Desenvolvimento de Curitiba, ela vai melhorar o trânsito e o transporte, com a saída definitiva dos caminhões que circulavam pelo trecho urbano da BR116 e causavam congestionamentos na cidade. Os automóveis que também viajavam de São Paulo para o Sul do país e passavam por ela não entrarão mais na cidade. Foram criadas vias de circulação em torno da cidade. “Com a Linha Verde, espera-se resolver os problemas de interligação dos bairros e aumentar a qualidade de vida dos curitibano” , diz Santoro.

A Linha Verde também visa aumentar a capacidade da Rede Integrada de Transporte; integrar bairros separados pela BR116; melhorar o acesso, a segurança e a eficiência do sistema de transporte de Curitiba; diminuir o tempo de viagem no sistema expresso e o tempo de espera nas estações; e reduzir o número de acidentes e vítimas de trânsito. O projeto prevê ainda o plantio de espécies nativas (incluindo o uso de árvores frutíferas), a recuperação da mata ciliar do Rio Belém, a implantação do Parque Linear e uma menor emissão de poluentes. Neto acredita que, com a opção de transporte coletivo, mais passageiros farão uso do transporte público, diminuindo com isso o fluxo de veículos nas ruas. O projeto da Linha Verde teve início em 2002, na gestão anterior, sob o nome Eixo Metropolitano e um desenho com alguns pontos de diferença. Sua licitação, no entanto, foi parar na Justiça. O BID não aceitou os documentos do empreiteiro que ganhou a concorrência. Foi só em 2005, na gestão do atual prefeito, que o edital anterior foi cancelado, o projeto modificado e as negociações com o BID retomadas.

     

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