
Imagem da matéria Pequenas e médias rumam para a Bolsa publicaca em Brasil Econômico em 04-11-09
Animadas pelo retorno de investidores por ofertas gigantescas, empresas de menor porte aceleram planos de vender ações
A reabertura do mercado de capitais para transações gigantescas como as de Visanet, Santander e Cetip já começa a ter reflexos positivos no ânimo das pequenas e médias empresas. Atentas ao retorno do apetite dos investidores estrangeiros por empresas com perspectivas de crescimento sustentado, grupos que estavam se preparando para ir à-bolsa antes do agravamento da crise colocaram a retomada do projeto na ordem do dia.
Caso típico de empresa que estava pronta para o IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) quando o mercado se retraiu pela tempestade global, a Sênior Solution, uma das maiores fornecedoras de sotwares para o setor financeiro, é um exemplo das proporções que esse movimento tem tomado.
A companhia, cujos principais sócios são o BNDES Par e o fundo de private equity Stratus, criou uma agenda permanente para decidir o momento adequado para realizar a oferta. “O conselho de administração fixou o segundo semestre do próximo ano como data para que a empresa esteja totalmente pronta para a listagem”, confirma o presidente da companhia, Bernardo Gomes. “Enquanto isso, estamos atentos à reação do mercado e à forma como os investidores têm colocado preço nas ofertas que estão em andamento”, explica.
O plano inicial da Sênior é abrir capital no Bovespa Mais, segmento criado pela Bolsa paulista em 2005 para receber empresas de pequeno porte. Enquanto conversa com bancos de investimento, escritórios de advocacia e outros intermediários de seu futuro IPO, a empresa espera entregar bons resultados ao mercado até o final do ano. “0 faturamento deve alcançar R$ 32 milhões, 12% a mais do que em 2008″, projeta Gomes.
A empresa acaba de estruturar uma nova área para ampliar os serviços que oferece a investidores institucionais, como fundos de pensão, de private equity e corretoras. “Esses clientes precisam de novas soluções. Oferecê-las pode ser um diferencial a ser vendido antes de abrir o capital”, crê o executivo.
Salto de qualidade
Outra empresa que buscará o mercado de capitais para financiar seu crescimento é a Cimcorp, que gerencia e integra sistemas de tecnologia da informação. “Já passamos pela primeira fase, de aprimorar governança corporativa”, diz o presidente da empresa, Tadeu Vani Fucei, lembrando que em 2002 recebeu um aporte de cerca de R$ 10 milhões de fundos de investimento dos bancos ABN e Bank of America.
No início do ano, porém, o grupo de controle da companhia recomprou a fatia de 36% das ações que as duas instituições financeiras detinham. “Foi uma demonstração de que apostamos na empresa, principalmente após o período de melhora da gestão, trazida pelos bancos. Queremos captar para adquirir empresas que faturam entre R$ 30 milhões e RS 50 milhões e estar entre os consolidadores do setor de tecnologia”, detalha. A Cincorp faturou R$ 190 milhões em 2008, alta de 35% em relação ao ano anterior.
O executivo ressalva, entretanto, que não tem pressa de chegar à bolsa. “Estamos prontos, com conselho de administração e somos auditados por uma empresa independente. Como queremos ir para o Novo mercado, temos de procurar o melhor momento. Não quero ir para a bolsa, captar e cair no esquecimento, pois temos de entregar resultados”, afirma.
Mexicana Softek venderá ações na Nasdaq
O momento favorável fez com que a Softek, que fornece softwares, serviços e consultoria em tecnologia da informação, acelerasse uma de suas metas: a chegada à Nasdaq. Ciente de que não conseguirá continuar crescendo organicamente apenas com a geração de caixa próprio, a empresa de origem mexicana, cuja operação inclui também filiais nos Estados Unidos, no Brasil e na Ásia, está com toda a estrutura de governança corporativa pronta para acessar o principal mercado acionário mundial. “Estávamosprontos para ir à bolsa quando a crise chegou. O plano inicial, que era listar papéis no Brasil, no México e nos Estados Unidos, foi abortado. Nossa ideia agora é monitorar de perto o apetite dos investidores americanos e asiáticos para anunciar a oferta assim que percebermos que o valor da captação é o adequado”, afirma o presidente da companhia, Francisco Lara. A Softek, que pretende fechar 2009 com faturamento global de R$ 190 milhões 35% superior ao do ano passado aposta no espaço existente no mercado brasileiro para crescer. “A operação brasileira representa 31% do faturamento do grupo”, diz. LF.
Opção por private equity antes de IPO ganha espaço
O telefone de Luiz Marcatti não para de tocar nos últimos meses. Acostumado, durante o auge da crise global, a ouvir reclamações de empresas que engavetaram projetos ou adiaram investimentos, o sócio da Mesa, consultoria especializada em assessorar empresas a caminho da abertura de capital ou que se preparam para receber novos investidores, começa agora a viver o movimento inverso. Empresas de pequeno e médio porte buscam arrumar a casa para se tornar atraentes para o mercado. “No momento, estamos tocando oito projetos de empresas que estão fazendo a lição e buscando aprimorar seus padrões de governança corporativa. É um caso sem volta para elas que, na maioria das vezes, já cresceram o que podiam com capital próprio e precisam melhorar a qualidade da gestão para conseguir atrair dinheiro novo,” define Marcatti.
É o caso da Ação Informática, umas das maiores distribuidoras de produtos e serviços de tecnologia da informação oferecidos por gigantes como Oracle e IBM. “Estamos vivendo os dilemas típicos de uma crise de adolescência”, brinca o presidente da companhia, Ênio Issa. “Somos vistos como grandes pelos fundos de private equity e como pequenos pelos bancos e intermediários de operações de abertura de capital”.
Com projetos de expansão de suas atividades para a América do Sul, onde já está presente na Argentina, no Uruguai e no Chile, a Ação definirá, até o final do ano, qual ação tomar. “Queremos fazer pelo menos uma aquisição fora do Brasil (provavelmente na Colômbia) até o fim de 2010. Essa compra pode ser antecipada dependendo do que for acertado com os sócios que vamos receber”, afirma Issa.
Outra empresa, a mineira AeC, que atua com tecnologia da informação nas pontas de consultoria, licenciamento de softwares e serviços de telemarketing, também busca atrair novos sócios e ganhar força para trilhar o desejado caminho de tornar-se uma empresa de capital aberto. “Existe todo um caminho para chegar até a bolsa. Nosso percurso terá de incluir outros passos anteriores, como a chegada de um fundo de private equity para partilhar novas experiências de governança “, diz um dos sócios da AeC, Cássio Rocha de Azevedo.
A empresa conversa com alguns desses fundos e deve anunciar a escolha até o final do ano. “Tomada a decisão, queremos fazer uma aquisição até março em áreas nas quais ainda não atuamos”, diz Azevedo.
Em serviços de telemarketing, a empresa concorre com gigantes como Contax e Atento. Embalada pelo aporte de R$ 56 milhões que recebeu do BNDESPar em setembro de 2007, a BRQ, outra empresa que fornece serviços de tecnologia de informação, não descarta viabilizar uma nova rodada para buscar dinheiro novo de investidores antes de ir à bolsa. “Avaliamos novas aquisições para as quais precisaremos de mais recursos”, diz o presidente da empresa, Benjamim Quadros.
Quando tornou-se sócia do banco de fomento, a BRQ assumiu o compromisso de abrir capital. A idéia inicial era vender ações no Bovespa Mais, algo que pode ser modificado. É possível que a empresa decida-se a ir direto ao Novo Mercado, o mais exigente e transparente da bolsa. “Não trabalhamos com uma data-limite para fazer o IPO e os investidores estão muito mais seletivos. É preciso tornar a empresa mais robusta”, prevê Quadros, lembrando que a BRQ pretende ampliar o faturamento em 2008, de R$ 180 milhões para a casa do bilhão em 4 anos.
Momento de reflexão
Tentando se recuperar dos estragos do fechamento da linhas de crédito durante a crise, a Galena, que atua na distribuição de matérias-primas para o setores farmacêutico e alimentício, está revendo seus planos de ida à bolsa, anunciados em 2008. “Nunca navegamos em um ano tão difícil. A economia ainda não voltou ao normal”, lamenta um dos fundadores da empresa, RananKatz. L.F.
Governança em alta
1- Estrutura de negócios tem de ser alterada
O primeiro passo para que uma empresa de pequeno porte possa pensar em receber novos sócios para financiar seu crescimento é resolver conflitos internos. “Como grande parte dessas empresas tem origem familiar e, portanto, são identificadas com seus fundadores, é preciso começar a organizar a governança da família, que envolve detalhes como sucessão, desde já”, diz Sérgio de Magalhães Filho, do escritório SM & F, que tem alguns clientes organizando processos desse para viabilizar uma futura ida à Bovespa.
2- Organização ajuda a buscar preços mais adequados
A melhora na estrutura de governança das empresas auxilia intermediários de ofertas de ações, como escritórios de advocacia e bancos de investimentos, a dar o valor adequado para as ações da companhia no momento do IPO, lembra André Viola, sócio da Terço Grant Thornton. “Muito se comenta que os preços das ofertas de ações de 2007 eram muito elevados. 0 que acontece é que o cenário econômico era outro. Agora os investidores querem maiores garantias de retorno dos negócios.”
3- Ir à bolsa é conseqüência e não obrigação
Especialistas lembram que, embora seja uma conseqüência natural para a maioria das empresas que já cresceram o que podiam utilizando capital próprio, tornar-se uma companhia de capital aberto não é a única saída. “A bolsa deve ser vista como um prêmio, não como uma obrigação”, alerta Edgar Efeiche, sócio da Diágono, consultoria especializada em implementar processo de governança. “Tem sido cada vez mais comum que também sejamos sócios das empresas”, afirma.
