21 de março de 2014 walacy

‘Gringos’ levam TI brasileira ao exterior

Em 21/03/2014

Uma olhada superficial no currículo de Stephen Gant sugere um americano típico do sul, que nunca se afastou muito de sua região de origem. Ele se formou na Auburn University, no Alabama, e trabalhou com o FBI, a CIA e a DEA (uma força de combate às drogas) durante o período em que foi fuzileiro naval dos Estados Unidos. Uma década atrás, depois de trabalhar para várias empresas, ele decidiu abrir seu próprio negócio em Alpharetta, uma cidade de 58 mil habitantes, na Geórgia. Até hoje mora no Estado na capital, Atlanta -, mas sua atenção está voltada para um lugar muito distante dali: o Brasil.

“Sempre representei empresas americanas no exterior, então achei que seria uma boa oportunidade fazer o contrário”, afirma Gant, que comanda os negócios da brasileira Módulo, de segurança digital, na América do Norte.

Como ele, uma galeria de executivos que carregam sobrenomes estrangeiros e não falam português está se formando nos grupos brasileiros de tecnologia da informação (TI). Não é de hoje que as empresas da área tentam se expandir no exterior, mas só mais recentemente, depois que a receita internacional tornou-se relevante, é que essas companhias a maioria de capital fechado e comandada pelos fundadores começaram a ganhar um apelo internacional de fato, com decisões que levam em conta todas as geografias e ações bem planejadas no exterior. Os “gringos” nunca foram tão bem-vindos.

A americana Renee Williams só conhece duas cidades no Brasil até agora São Paulo e a estância turística de Poços de Caldas, em Minas-mas se sentia em casa no fim de janeiro, durante um encontro realizado pela Stefanini, de serviços de TI, em São Paulo. Todas as atividades ocorreram simultaneamente em três idiomas (português, inglês e espanhol) e os estrangeiros eram praticamente metade dos 200 profissionais convocados.

O quadro reflete o grau de internacionalização da Stefanini. No ano passado, cerca de 40% do faturamento total, de R$ 2,11 bilhões, veio do exterior, e a expectativa é que essa participação aumente. “Em 3 a 5 anos, a previsão é chegarmos a algo do tipo 50/50 [em relação à receita interna], dependendo de variáveis como o efeito cambial e as oportunidades no Brasil”, diz Marco Stefanini, presidente do grupo.

Dos 17 mil funcionários da Stefanini, quase 7 mil são estrangeiros e vivem fora do país. Nas Filipinas, por exemplo, trabalham 600 pessoas. Na maioria desses escritórios, os brasileiros são raridade. “Entre os 2 mil funcionários que temos na Europa, só um é brasileiro”, afirma o português Manuel Frade, chefe das operações européias da Stefanini. Profissionais de 30 nacionalidades trabalham na companhia e o processo de internacionalização avançou tanto que passou a incluir a mecânica das contratações. Uma das vice-presidentes da Stefanini nos Estados Unidos veio da Etiópia.

Durante muito tempo, as companhias nacionais se preocuparam com a falta de uma marca Brasil, que ligasse o país no exterior a uma imagem de qualidade tecnológica, como fez a índia. Os executivos estrangeiros têm ensinado, no entanto, que isso não é tão preponderante como a capacidade de entregar o que foi prometido tenha a empresa a nacionalidade que tiver.

“O cliente, em especial nos Estados Unidos, não quer saber de onde a companhia é, mas se ela é capaz de prestar um bom serviço. É isso o que importa”, afirma Renee, da Stefanini.

Esse trabalho requer disciplina e uma série de iniciativas para tranqüilizar o cliente no exterior. A Módulo tem investido em certificação internacional e em construir sua reputação entre analistas de institutos reconhecidos, como o Gartner e a Forrester Research. Prêmios de revistas especializadas também têm ajudado, mas Gant diz que é preciso prestar atenção aos detalhes do dia a dia. No escritório da Módulo em Atlanta, 60% da equipe é brasileira. A informalidade no trato pessoal não costuma ser um problema, mas os profissionais são constantemente lembrados que no exterior há muito menos flexibilidade em relação a prazos e pontualidade.

Para muitos estrangeiros, diz o americano Chris Braden, ainda é difícil se livrar do estereótipo brasileiro, “das praias e da Amazônia”, mas essa imagem fica para trás quando se conhece o país. Braden trabalha para a Exceda, uma integradora de tecnologias, e visitou São Paulo pela primeira vez quatro anos atrás. Desde então, fez várias viagens. “Há uma grande influência européia e você percebe como a cidade é moderna”, afirma o executivo.

Na Exceda, 15% do faturamento veio do exterior no ano passado, mas o plano é que essa participação aumente para 50% em cinco anos. O interesse não é só comercial. Junto com Braden, responsável pelos negócios na América do Norte, a companhia contratou um vice-presidente de tecnologia, David Reisfeld, para aproximar a empresa das novidades tecnológicas mais recentes.

A americana Joanne Diehl viu no Brasil um celeiro de bons profissionais de tecnologia depois de abrir sua empresa, a Think International, em 1999. “Fui ao país várias vezes e contratei muitos brasileiros”, diz ela. Além da capacidade técnica, pesou a favor o aspecto cultural, muito mais parecido com o americano em comparação com a índia, e o fuso horário, também mais conveniente.

Não foi surpresa para Joanne, portanto, quando a BRQ, de serviços de TI, demonstrou interesse em comprar seu negócio, em 2008. Com o acordo, a executiva virou presidente do braço americano da BRQ, que hoje reúne cem pessoas em Nova York.

O Brasil pode ter se tornado alvo de críticas no exterior por causa da desaceleração do crescimento econômico nos últimos tempos, mas o forte desempenho anterior e o lugar entre os Brics ajudou a reposicionar o país como um fornecedor de produtos e serviços capaz de ir além das commodities, concordam os executivos estrangeiros. “A força do Brasil tornou-se evidente, com grupos

brasileiros de várias setores da economia crescendo no exterior”, diz o argentino Jorge Fernando Baya, responsável pelos negócios da Totvs, fornecedora de software de gestão empresarial, no Cone Sul. A empresa tem operações diretas na Argentina e no México.

Mesmo a Copa, alvo de protestos recentes nas ruas das grandes capitais brasileiras, tornou-se um foco de atenção para os clientes e os próprios executivos. Baya está conversando com clientes e pode vir para o torneio. “Na Copa passada, da África, eu brincava que a Totvs era a única empresa que fornecia seu próprio argentino para ser alvo de gozação”, afirma o executivo, sem perder o humor.

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walacy Publicitário, Profissional de Marketing especialista em Digital. Formações em Design Gráfico e em Artes Gráficas. Trabalha aliando design para web com o tripé do marketing digital (SEO, SEM e Inboud Marketing).

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