Favorecidas por polÃticas de estÃmulos governamentais, como mecanismos de subvenção econômica, polÃticas de incentivos fiscais à exportação e programas de financiamento e mesmo de aporte de capital do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), as grandes empresas nacionais que desenvolvem software no PaÃs aumentam sua participação no bolo do mercado de serviços offshore. Pelo menos quatro organizações – Stefanini, CPM Braxis e BRQ – ocupam hoje posição privilegiada no ranking das dez maiores empresas de offshore outsourcing, em 2008, de acordo com pesquisa elaborada pela IDC, empresa norte-americana de consultoria e inteligência de negócios.
Quem domina o ranking são os provedores multinacionais, é claro. Do total exportado em 2008, aproximadamente 2,260 bilhões de dólares, as companhias multinacionais foram responsáveis por uma fatia de 1,906 bilhão de dólares, enquanto as empresas nacionais responderam por 355 milhões de dólares. “Mas se levarmos em conta que esse era um negócio praticamente inexistente há três anos, para as empresas nacionais, sem dúvida, representa um avanço inegável”, constata Mauro Perez, country manager da IDC Brasil. “Isso se dá por uma ação mais organizada das empresas, espécie de bandeirantes do mercado de software, que investiram, abriram filiais em outros paÃses e adquiriram competências interessantes”, afirma.
O diferencial de custo foi também um item muito importante nesse movimento de avanço dos fornecedores nacionais, avalia José Luis Rossi, Chief Executive Office (CEO) da CPM Braxis. O custo é um elemento fundamental para atrair a clientela internacional, segundo o executivo. Muitas companhias globais ainda fazem praticamente todas as suas atividades de TI com provedores locais, e a oportunidade delas utilizarem entre 30% a 50% de seus investimentos em terceirização é gigantesca. “Além de competência técnica, oferecemos um custo mais competitivo. Assim podemos ampliar nossa participação no mercado”, destaca Rossi. Em 2008, informa ele, a CPM Braxis obteve no mercado de serviços offshore algo como 5% de sua receita, que bateu o patamar recorde de 1 bilhão de reais.
Para uma companhia cujo lançamento de exportação de serviços de software ocorreu há apenas dois anos, quando da união da CPM com a Braxis, foi um passo importante e demonstrou uma vocação nata para atuação internacional, assinala o executivo. Hoje, a empresa tem filiais nos Estados Unidos e na Alemanha, 83 pontos de atendimento em todas as regiões do Brasil e fábricas de software em Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, de onde exporta serviços para o PaÃs e para o exterior. “Estamos numa situação especial, pois não só focamos em desenvolvimento de aplicação, mas também em suporte de infraestrutura, tudo remotamente. Estamos em expansão e a perspectiva é aumentar nossa taxa de participação das exportações no faturamento, este ano, em torno de 50%”, diz Rossi.
Aquisições
Na sétima posição do ranking das maiores provedores de serviços offshore em 2008, com uma receita de 12 milhões de dólares, a BRQ baseia sua estratégia numa polÃtica de aquisições de empresas no exterior para ganhar maior capilaridade e na criação de fábricas de software para garantir a retaguarda de suas operações, informa Benjamim Quadros, presidente da empresa. Em setembro de 2007, a BRQ recebeu um aporte de capital de 50 milhões de reais, proveniente da BNDESPAR, (empresa de participações doBNDES) e um financiamento de 6 milhões de reais do BNDES no âmbito do Prosoft (Programa de desenvolvimento para a Indústria de Software). Hoje o BNDES é um dos acionistas da empresa.
Os recursos foram utilizados para a expansão das operações da BRQ. Em maio do ano passado, a empresa comprou a norte-americana Think International, com objetivo de agregar uma receita de 8 milhões de dólares em offshore, e investiu na criação de novas fábricas de software, entre as quais as de Fortaleza e Recife (além das existentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Campinas, Salvador e BrasÃlia) e abertura de um escritório em Madri, na Espanha. “Além de maior capilaridade, nosso objetivo é nos fortalecer internamente, com um pessoal mais capacitado, inclusive em inglês, para tocar projetos internacionais e oferecer serviços especializados em aplicação”, diz Quadros. Em 2008, o faturamento da empresa cresceu 20%, atingindo 180 milhões de reais e, mesmo com a crise atual, a expectativa é de aumento de 30% da receita este ano.
Diferentes focos
Grandes fabricantes nacionais de software buscam a intemacionalização sem, no entanto, focar especificamente no produto offshore. É o caso da Totvs, multinacional brasileira de software, cujo faturamento fora do Brasil está hoje entre 3% a 5% de sua receita total, cerca de 800 milhões de reais em 2008. “Temos fábricas de software em algumas cidades do Brasil, e também na Argentina e no México, mas são plantas voltadas para fazer desenvolvimentos especÃficos para a nossa base de clientes”, conta Fábio Balestrin, diretor de operações internacionais da Totvs.
A empresa tem presença em 23 paÃses, filiais em Portugal, Argentina e México, trabalha através de canais e franquias em Portugal, Angola, Paraguai, Chile, Uruguai e Argentina, e pretende investir forte em 2009 e 2010 para ampliar sua operação internacional. “O business offshore é um serviço adicional prestado aos nossos clientes. O nosso modelo é colocar unidades Totvs fora do PaÃs, capacitar pessoas nas áreas técnicas, comercial e de gestão, e levar para nossa base de clientes no exterior nossas soluções já consagradas na área de gestão empresarial e produtos verticais”, diz Balestrin.
Para a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), no entanto, aumentar a participação brasileira no mercado offshore outsourcing, ou mesmo trilhar caminhos especÃficos de internacionalização, não é apenas uma questão de vontade. O PaÃs tem condições de exportar mais, certamente, mas ainda é preciso fazer muita coisa. “O Brasil tem uma polÃtica de desenvolvimento produtivo, criou uma metodologia no sentido de irrigar o setor com uma série de vantagens, desde financiamentos para pequenas empresas, incentivos à inovação, e uma lei ainda não regulamentada, que reduz os impostos e o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para exportação. Mas existe ainda uma grande burocracia. As coisas não acontecem na velocidade que se deseja”, diz Antônio Carlos Rego Gil, presidente da Brasscom.

