A TI sai da Gaveta

Estimativas da IDC apontam que o Brasil deve gastar, este ano, algo como R$ 45 bilhões em TI, 15% de aumento em relação ao ano passado. Mesmo não existindo, números específicos da área de governo, um dado mostra como a esfera pública federal vai contribuir neste movimento de alta: 8,2% das compras de hardware 5 serão feitas no Distrito Federal. Na análise de consultores, gestores e fornecedores 3 de tecnologia do mercado fica a imagem de que neste novo mandato muitos projetos sairão da gaveta.

Reinaldo Sakis, analista da IDC , Brasil, acredita que o governo está aumentando cada vez mais seus gastos com tecnologia, com o firme propósito de aumentar a transparência para a população, além de estar em curso os projetos de inclusão digital e melhoria da própria infra-estrutura. “Os investimentos dos primeiros três meses do ano provocam uma visão otimista, acho que o governo vai investir muito nos próximos quatro anos, com certeza, em taxas superiores ao PIB, algo como 10% a 15% ao ano”, garante Werner Mundt, diretor de setor público da BearingPoint.

Para o consultor, o governo ainda carece de sistemas de gestão e metodologias de governança corporativa, o que gera muito espaço para sistemas integrados. “Outra tecnologia que pode ser forte é SOA (service oriented architecture), porque existe um descompasso muito grande entre as áreas fins de governo. Há também oportunidades no sentido da convergência de dados, voz e imagem, que pode ser utilizada em diversas áreas. Ainda será incipiente, mas pode ser usada em larga escala na segurança pública”, enumera. Outra tecnologia que tem grande espaço para deslanchar, principalmente em portos, é RFID (identificação por radiofreqüência”, enumera Mundt.

Um fator decisivo, além de vivermos o ano de abertura de um novo mandato federal, é a demanda dos cidadãos por informação. 0 que encontra eco no governo como uma forma de diminuição de filas e melhoria no atendimento. O acesso às informações e mesmo a inclusão digital ganham peso, inclusive político, o que justifica os investimentos. “Os telecentros são um caso de sucesso. Vamos ver um incremento bem interessante no investimento nesta área. Internamente, o uso da internet para compras gera transparência”, avalia Mundt.

Projetos em foco, Teimo Araújo, gerente de compras eletrônicas do governo de Pernambuco (veja mais no Box. De Pernambuco para o mundo), comprova a disposição para investimento. “Provamos que é possível melhorar o poder de compra e tornar mais eficiente o setor público com o pregão eletrônico. E ainda proporcionando que a sociedade fiscalize o processo. Neste sentido, a transparência é um elemento fundamental, a sociedade se tornou fiscal”, completa.

Outra área que tem espaço garantido é governança de TI. Ainda não como prioridade, mas o conceitq passa a entrar na lista das preocupações constantes. “Existe uma necessidade de otimizar os investimentos em TI, são coisas que agregados ao SOA vão fazer com que a tecnologia evolua na idéia do atendimento dentro do governo”, diz Mundt, da BearingPoint, lembrando que outra área de investimento contínuo é a segurança, que tem sido uma prioridade, e a certificação digital, que passa a ganhar visibilidade.

Fartura
Com negócios crescentes no setor público, passando de 24% para 30% dos seus negócios voltados para a área este ano, a BRQ sentiu que depois de dois anos de projetos engavetados, teremos 2007 e 2008 com um grande número de editais federais. 0 foco, como é perfil da companhia, são os serviços de fábrica de software e projetos, especialmente os ligados aos bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, além de órgãos como Tribunal de Justiça. “0 cliente brasileiro vai trabalhar muito em Cobol, Java e .Net, e em Brasília isso também será verdade tanto na plataforma alta quanto baixa”, compara Andréa Quadros, diretora comercial para governo da BRQ.

Quem investe?
Ela revela que estão em curso dois grandes editais no Banco do Brasil e que as concorrências públicas estão mais abertas, permitindo maior competição entre os provedores de produtos e serviços. “Participamos de um edital com 20 empresas. Antes eles eram muito restritos. Vejo mais transparência no processo. Estamos investindo muito em Governo, temos CMMi de nível 5, e acho que a qualidade será uma tônica também nas compras estatais”, garante Andréa.

A executiva vê o setor público mais ágil, se aproximando das demandas do setor privado. “No início do ano, os projetos de pagamento, como o IPVA, são um termômetro para o mercado.”

Quando o Governo fez o TED (transferência eletrônica de documentos), gerou muitos investimentos. A nota fiscal eletrônica é uma forte tendência que também gera mais eficiência”, explica Andréa. Na comparação entre os três níveis de governo, ela vê algumas tendências: todos focados muito nos tributos, no controle e na redução de desvios do dinheiro público.

Entre os setores mais informatizados, o Ministério da Fazenda segue na poleposition, afinal montou e precisa gerir um controle sofisticado de arrecadação. Depois existe um grupo intermediário que tem investido com freqüência, como a Previdência. “Mas de uma forma geral o Governo é carente. Os estados e municípios estão muito atrasados, e mesmo em estados como Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná que estão na vanguarda, ainda existe uma visão míope sobre como TI pode ajudar na gestão. Em Minas Gerais o retorno com TI foi muito grande”, aponta Mundt.

O tão divulgado PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) não possui em suas linhas gerais sinais explícitos de investimento do Governo em TI. No entanto, acredita-se que mesmo assim os reflexos surgirão a partir do momento em que os projetos se tornem algo concreto. Pelo menos essa é a esperança do mercado e que faz parte das previsões otimistas.